Significado dos principais gestos nas celebrações da Semana Santa

A partir do Domingo de Ramos iniciamos a semana mais importante da nossa Caminhada de Fé, a Semana Santa, na qual vivenciaremos o Tríduo Pascal da paixão, morte e ressurreição de Cristo. “O Tríduo Pascal é o ápice de todo o ano litúrgico e também o ápice da nossa vida cristã” (Francisco, P.P.).
Na Semana Santa somos convidados a nos unir a Cristo na contemplação do seu mistério redentor, e fazer um percurso pelos últimos acontecimentos vividos por Ele antes de morrer na cruz e ressuscitar para a nossa salvação.

• Domingo de Ramos

O primeiro desses acontecimentos é a entrada de Jesus em Jerusalém sendo aclamado como o Filho de Davi. Nós contemplamos este evento na celebração do Domingo de Ramos que marca o início da Semana Santa. Dois elementos importantes deverão ser observados nesta celebração, primeiro é Jesus montado em uma Jumenta e segundo são os Ramos.
Jesus entra em Jerusalém montado na jumenta para se cumprir a profecia de Zacarias que dizia que o Messias seria humilde, renunciando aos ornamentos dos reis históricos e utilizando a antiga montaria dos príncipes. Esse aparato modesto do Rei messiânico (Jesus) revela o caráter humilde e pacífico do seu reinado, Jesus é o Messias humilde.
Já os ramos simbolizam a entrega de tudo que o povo que seguia Jesus possuía. No relato bíblico a multidão “forrava” o caminho que Jesus passava com suas vestes e com os ramos enquanto aclamavam “Hosana ao Filho de Davi!”. Vale ressaltar que a palavra “Hosana” significa “Salva, por favor”, ou seja, o povo despoja tudo o que tem, ramos e vestes, e clama, suplica, ao filho de Davi que os salve! Esse deve ser o espírito para nós contemplarmos bem o Domingo de Ramos, despojar, retirar, tudo o que temos, nossas máscaras, aquilo que nos sufoca, e clamar à Jesus que passa: “Salvai-nos Senhor, por favor!”.

• Lava Pés

Na Quinta-feira Santa inicia-se o Tríduo Pascal. “O Tríduo se abre com a celebração da Última Ceia. Jesus, na véspera de sua paixão, oferece ao Pai o seu corpo e o seu sangue sob as espécies de pão e de vinho e, doando-os em alimento para os apóstolos, ordenou-lhes perpetuar a oferta em sua memória. Recordamos o Lava Pés. Esse gesto é o serviço de Jesus que doa a si mesmo, totalmente.” (Francisco, P.P.). Como citado acima, dois outros elementos são importantes para vivermos profundamente a Quinta-feira Santa: o Lava Pés e a instituição da Eucaristia.
O relato bíblico nos mostra que Jesus depõe o manto, toma uma toalha e cinge-se com ela, põe água numa bacia e começa a lavar os pés dos discípulos. Tanto a toalha cingida como o ato de lavar os pés dos integrantes da mesa, ou seja, o traje e a função, são características específicas dos escravos. Jesus, Mestre e Senhor, se faz humilde e servo como vimos lá no Domingo de Ramos, o Messias humilde. Lavar os pés não é simplesmente um gesto, é vida!
Lavar os pés é reconhecer a dignidade de nosso irmão, fazer com que ele se sinta pessoa humana, irmão e companheiro de viagem, filho de Deus e herdeiro de um Reino que o sangue de Cristo nos mereceu. Lavar os pés é ter coragem de pôr-se à sua disposição e dizer-lhe sem reserva: ‘Amigo, pode contar comigo’. Lavar os pés é assumir funções e cargos na comunidade, não como um pedestal, para satisfazer sua vaidade, seus interesses, mas para servir, para promover o bem comum, a paz das famílias, o progresso das comunidades, para ajudar os pobres e carentes a terem condições mais dignas de vida. Lavar os pés é o carinho do esposo que sabe respeitar a esposa em sua dignidade de mulher, é ser sincero e fiel, considerá-la seu complemento na alegria e no sofrimento. Lavar os pés é a dedicação da esposa amável, que tudo faz para tornar mais humana a vida do esposo, dos filhos e do lar, promovendo a paz, fruto do amor. Lavar os pés é a alegria e compreensão dos filhos que valorizam tantos trabalhos humildes tão importantes de seus pais.” (Revista Horizonte).
E o segundo elemento é a instituição da Eucaristia, no qual ele se dá em alimento a seus discípulos para que sempre refaçam aquele momento, revivendo-o na atualidade. A Eucaristia não se encerra no pão Eucarístico, estar em comunhão é comungar de um projeto de vida, é comprometer-se com o Reino. E onde se constrói o Reino? O Reino se constrói no resgate daqueles que estão a margem, no serviço, no diálogo. Vejam, Jesus institui a Eucaristia, ceia com os seus discípulos, e depois se põe a lavar os pés deles, ou seja, Eucaristia é comungar Cristo-alimento e Cristo-serviço.

• Adoração da Cruz

Na Sexta-feira Santa contemplamos a morte de Jesus. “Na liturgia da Sexta-feira Santa, meditamos o mistério da morte de Cristo e adoramos a Cruz. Nos últimos instantes de vida, antes de entregar o espírito ao Pai. Jesus, com seu Sacrifício, transformou a maior injustiça no maior amor.” (Francisco, P.P.). A Adoração da Cruz tem um belo significado, pois nos permite “entrar” no mistério da morte de Jesus. Diante da cruz podemos reviver o momento de Sua morte, estar aos pés da cruz, ajoelhar com aqueles que lá estavam (Maria, Madalena, João) e entrar na adoração, na dor, no senso de gratidão e no abatimento deles. Diante da cruz nós morremos com o Bem-amado, recebemos dele o último olhar, ouvimos seu último suspiro. Desmaiamos de amor, de dor, de vergonha, de penitência com Ele. Diante da cruz entendemos que o maior amor consiste em dar a própria vida por aqueles a quem a gente ama.

• Sábado Santo e a Vigília Pascal

O Sábado Santo é o dia em que a Igreja contempla o ‘repouso’ de Cristo no túmulo depois do vitorioso combate da cruz.” (Francisco, P.P.). Não podemos confundir o Sábado Santo com a celebração da Vigília Pascal! O Sábado Santo termina nas Vésperas, ou seja, em torno das 18h00 do Sábado, após este horário já se inicia a Vigília Pascal na qual contemplamos a ressurreição de Jesus. Desde o final da Adoração da Cruz até a Vigília Pascal a Igreja espera junto ao sepulcro o momento da ressurreição de Jesus, os antigos chamavam esse período de espera de “vácuo” ou ainda “escuridão”, pois nos é tirado até mesmo o Senhor. Porém, somos uma Igreja da Esperança, e temos confiança que Jesus vence a Morte!
E essa certeza da Vitória de Cristo se dá na Vigília Pascal, na qual contemplamos a Ressurreição de Jesus! Essa celebração é considerada a mais importante de todas e a mais rica em significados. Vejamos alguns deles:
Primeiro: Liturgia da Luz (Benção do Fogo e preparação do Círio). A primeira parte da Vigília Pascal simboliza a luz da Páscoa, que é Cristo, que ilumina o mundo inteiro. Ascende-se o Círio no fogo abençoado enquanto as luzes da Igreja estão apagadas e, logo em seguida, o Círio ilumina toda a escuridão e seguindo-se com a Proclamação da Páscoa. A Proclamação da Páscoa anuncia que “a luz de Cristo dissipa as trevas de todo o mundo” e nos convida a “celebrar o esplendor admirável desta luz na noite ditosa, em que o céu se une a terra, em que o homem se encontra com Deus!”.
Segundo: Liturgia da Palavra. A segunda parte da Vigília é a Liturgia da Palavra na qual se propõe sete leituras do Primeiro Testamento, que recordam as maravilhas de Deus na história da salvação, e duas do Segundo Testamento, que anunciam a Ressurreição segundo os três Evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) e o Batismo cristão como sacramento da Páscoa de Cristo. Com isso, a Igreja interpreta o mistério pascal de Jesus tendo como luz o acontecimento-Cristo, simbolizado pelo Círio.
Terceiro: Liturgia Batismal. A Liturgia Batismal é parte integrante da celebração na qual se abençoa a fonte batismal (Batistério) e renovam-se as promessas batismais de todos os presentes. É belo esse significado, pois nossa Igreja desde a sexta-feira espera pelo Senhor que dorme no sepulcro, depois contemplamos a luz que ilumina as trevas do mundo e, imbuídos por esse espírito de esperança, renovamos nossas promessas nesse fogo novo que ressuscita nossa fé através do símbolo da água que, para nós, significa VIDA!
Quarto e último: Liturgia Eucarística! A Liturgia Eucarística é o ponto culminante da Vigília, pois é o sacramento pleno da Páscoa, isto é, a memória do sacrifício da Cruz, a presença de Cristo Ressuscitado! Aqui compreendemos que a Morte não é mais o fim, mas simplesmente ponte, passagem, PÁSCOA!
Na grande Vigília Pascal, em que ressoa novamente o Aleluia, celebramos Cristo Ressuscitado, centro e fim do cosmo e da história; vigiamos cheios de esperança à espera do seu retorno, quando a Páscoa terá a sua plena manifestação.” (Francisco, P.P.).

Por fim, ao olharmos para esses “pontos chaves” da Semana Santa podemos concluir que a riqueza de significados que cada momento de contemplação, cada gesto de Jesus, nos chama a mergulharmos no mistério de amor de um Deus Pai que quis se fazer Filho para resgatar sua criação amada do Pecado da Morte. Encerro a reflexão apontando mais uma fala do Papa Francisco na esperança que cada cristão que vivenciar esses dias santos possa se “re – ligar” a Cristo, autor e razão de nossa fé!
Queridos irmãos e irmãs, nestes dias do Tríduo Santo não nos limitemos a celebrar a paixão do Senhor, mas entremos no mistério, façamos nossos os seus sentimentos, as suas atitudes, como nos convida a fazer o apóstolo Paulo: ‘Tenhais em vós mesmos os sentimentos de Cristo Jesus’ (Fil 2,5). Assim, a nossa será uma ‘feliz Páscoa’.”.

 

Ruan Carlos André Lopes
Seminarista Diocesano colaborador na Paróquia Frei Galvão

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